25.1.06

Acordares

Saiu de casa depressa, sem dizer pra onde ia. Saiu como em todos os dias. Outra manhã de domingo, outra insuportável manhã de domingo. A melhor parte, quando ainda não se tem a consciência irreversível do dia infindo da semana. O famigerado dia do descanso, o dia em que nos reunimos, e que deveria ter sóis instantâneos, sorrisos e harmonia familiar. O dia da semana em que fica mais clara a distância entre o que somos e o que deveríamos ser.
Saiu fugido ainda que soubesse a que horas voltaria. Saiu perdido, pra se encontrar. Avistou longe todos os amigos: Velhos amigos que conhecera ontem à noite. Velhos e íntimos, os sempre amigos de uma noite antes, quiçá da semana passada. Depois se iam, sumiam, como os desenhos das nuvens.
Já sabia. Eles iam rir, falar mal de um monte de gente, na frente das quais sorririam depois, esparramando sua carência e solidão em todos os cantos da cidade. Beberiam mais algumas, diriam coisas com as quais não concordavam, por exemplo, que adoraram filmes que, na verdade, não entenderam:
“- David Lynch é genial!” - para parecer mais interessante e quem sabe comer alguém naquela noite.
Voltou.
Voltou.
Voltou muitos domingos, sempre ao mesmo lugar. Ia dormir e todos os dias pensava em pensar, mas desistia e afastava essa idéia. Tornou-se um grande apresentador de TV, às custas de um tio rico. Ficou rico, famoso, “querido por todo o Brasil”. Comprou uma casa enorme, cheia de espelhos, vidros e ecos vazios.
Acordou.
Abriu os olhos de súbito. Olhou a janela, a fresta de luz, os cigarros, os móveis ao redor. Olhou tudo e não viu nada. Sentou-se. Náusea. Sentiu alguém chegando por trás, dar-lhe-ia um susto, um beijo e um bom dia.
Silêncio.
Acordou.
Abriu os olhos de súbito. Ficou parado uns instantes. Olhou tudo ao redor. O cigarro. Eu não fumo – pensou. Sentiu alguém vindo até ele. Pegou o cigarro.
Acordou.
Abriu os olhos lentamente. Chorou lentamente. Olhou a cabeceira da cama: Nenhum cigarro.
Quis um cigarro. Passou as mãos no rosto. Estava acordado. Arranhou o próprio rosto. Quis tirar aquela série incessante de acordares. Quis tirar tudo.
Viu o espelho.
Era tarde.

4 comentários:

ariadne disse...

Oi Stella, bem vinda ao concurso maldito e boa sorte.

abração

quina vida disse...

êeeeee... a moça chegou.

bom texto, algumas coisas me incomodam, mas são tão pequenas que nem vale a pena indicar.

parabéns debutante pera chegada!

Lara disse...

Gostei da rapidez e do final, que parece meio cinematográfico.

Bem vinda e boa sorte, de novo.

quina vida disse...

quanto a sua pergunta no perfil,

acho que o texto está bom, o que me incomoda as vezes é uma opinião pessoal muito forte no texto do autor, que às vezes pode se confundir com uma "moral", que o autor quer que as pessoas "entendam".

fui claro?

sei lá, e nessas horas acho que fica pouco pra eu refletir.

sei lá. minha impressão e é logico, todos temos gostos pessoais.

grande beijo.