18.7.07

Tava andando daquele jeito que sempre andava, meio desviando o olhar e o corpo de todo o resto da rua, quando o carro dela parou ao seu lado. Sentiu o calor de um olhar, do único que chegava a tocar-lhe o rosto.

-Oi.


Silêncio.
Só ouvia o barulho da chuva fria caindo no rosto quente.

-Entra no carro.

Mas sabia, sabia que era hora, sabia também que se entrasse. Se. O que Seria? Sério. Sentia como se andasse presa por um elástico, e por mais que andasse daquele jeito que andava por aí, meio com pressa, desviando o corpo e os olhos, meio fugindo. Por mais que assim fosse, uma hora o elástico puxava de volta. E.

-Você não vai entrar? Chora não. Não entendo. Entra. Não entendo porque me olha desse jeito. Parece que descobriu há pouco tempo o que dizíamos saber há tanto...

-Entro se você não perguntar nada. Entro se nada tiver acontecido. Entro se não tiver carro e chuva, nem tentativa nenhuma. Entro se não tiver que explicar. Se não parecer que andei tanto de novo, porque eu mesmo, já não lembro. Dá-me teu silêncio de quem já sabe? Depois eu desço e volto como se não tivesse existido esse encontro, e finjo que posso continuar tentando. Continua aí? Continua aí longe mesmo, pra parecer pra mim que em algum lugar existe algo diferente.

Então entrou no carro. Seguiram.


“Eu quero amor da flor de cactus
ela não quis
Eu dei-lhe a flor de minha vida
vivo agitado...”
(João Ricardo)

Um comentário:

Monique disse...

Lindo...leve, como a Stellinha.
Não pára de publicar, garota!
TE AMO...