28.8.07

16/08/2007. Madrugada.

"Tão bonito que baixou os olhos"
Caio Fernando Abreu.


Desviou o olhar. Três ou quatro notas.
Melodia fácil, a noite... A lua desce e vai, e a gente continua.

Três ou quatro goles.

Desviou o olhar.
Três ou quatro noites. Dentro e fora, até o fim.

Chega o momento. Atônito ápice. Amanhece o fim da noite...
Sonho ou sono...
Notas da noite.

14.8.07

Ah, poesia...Onde é que você está?Hoje quando virei a esquina daquela vírgula, quase... Quase te peguei pelo braço, e aí ia entender o porquê de tanta fuga.Ia interrogar-lhe até você cair de joelhos.Ia torturar-lhe até que me dissesse tudo, até que se realizasse, até que explodisse.Você na cadeira elétrica, poetando, implorando liberdade, como toda boa poesia implora e eu rindo-me por dentro, chorando de alegria.Um dia ainda te pego.Ainda arranco-lhe os olhos.Porque gosto de poesia cega.Depois digo-lhe tudo que passei sem você, até você prometer, mentindo, nunca mais me deixar.

30.7.07

Por desencostar-se

Caio encostou-se no batente da porta e ali ficou longo tempo, a imaginar se seria mesmo melhor entrar. Pois sim. A decisão não era qualquer uma. Adentrar a porta e encontrá-lo então, depois do que havia passado, encarar a própria cara despida das caras de antes. Mãos suando, nem mais nem menos que sempre que pensava em.
Tudo bem podia até ser de não entrar. Quem sabe pular a janela, tomar sol na praça, tomar uma pinga forte e então entrar só depois de se suicidar três vezes, tomar cinco doses, outros tantos sóis. E só.
Idéia idiota, otário! Quantas vezes fugiu, oras chega! Afinal muitas horas haviam passado, muitos limões e muitos sóis. Desde que estava no batente, já se matara pelo menos uma vez por dia em nome de qualquer coisa, pra agüentar o próximo.
E o próximo era sempre o mesmo, o dia era sempre um batente, um quase entrar, um quase vencer, um quase ser. Era por isso, e nada mais que ali estava: pernas bambas, olhos fortes num canto qualquer.
Entrou como quem quebra com muita dificuldade o ovo do qual vai nascer. Nasceu frente a frente, ele e os olhos sem jeito no espelho. Agora não tinha mais porquê, estavam a sós. Entrou por desistir e não ter mais nada do que se lembrar. Quebrou a casca.
Morte lenta é nascer. Morte lenta é esperar. E morte é sempre morte. E hoje ninguém mais o reconhece tanto que anda por aí com sua própria cara e palavra, caindo pelas esquinas, cheio de prazer e gozo recente. Rindo pelas escadarias de por aí. No lugar por aí Caio agora se encontra. Ninguém mais o encontra. Caio morreu pra todo mundo e teve que nascer sozinho. Sem antes... sem nada...

18.7.07

Tava andando daquele jeito que sempre andava, meio desviando o olhar e o corpo de todo o resto da rua, quando o carro dela parou ao seu lado. Sentiu o calor de um olhar, do único que chegava a tocar-lhe o rosto.

-Oi.


Silêncio.
Só ouvia o barulho da chuva fria caindo no rosto quente.

-Entra no carro.

Mas sabia, sabia que era hora, sabia também que se entrasse. Se. O que Seria? Sério. Sentia como se andasse presa por um elástico, e por mais que andasse daquele jeito que andava por aí, meio com pressa, desviando o corpo e os olhos, meio fugindo. Por mais que assim fosse, uma hora o elástico puxava de volta. E.

-Você não vai entrar? Chora não. Não entendo. Entra. Não entendo porque me olha desse jeito. Parece que descobriu há pouco tempo o que dizíamos saber há tanto...

-Entro se você não perguntar nada. Entro se nada tiver acontecido. Entro se não tiver carro e chuva, nem tentativa nenhuma. Entro se não tiver que explicar. Se não parecer que andei tanto de novo, porque eu mesmo, já não lembro. Dá-me teu silêncio de quem já sabe? Depois eu desço e volto como se não tivesse existido esse encontro, e finjo que posso continuar tentando. Continua aí? Continua aí longe mesmo, pra parecer pra mim que em algum lugar existe algo diferente.

Então entrou no carro. Seguiram.


“Eu quero amor da flor de cactus
ela não quis
Eu dei-lhe a flor de minha vida
vivo agitado...”
(João Ricardo)

26.4.07

-Devolve minha ternura? Aquela que eu sei que tenho, você escondeu!
Eu quase te liguei, tinha me dado assim uma grande vontade de te dizer qualquer coisa, deve ser coisa de sábado à noite, eu ia te contar uma coisa que descobri sobre você, e tenho certeza que você não sabe. Sabe... Qualquer coisa... -Devolve por favor?
-Não te devolvo!
-Devolve sim! Devolve e eu te conto o que ia te contar se tivesse te ligado, se eu não. De novo....
-Não posso te devolver isso.
-Por que?
-Porque eu perdi. Não dá pra guardar.
-Mas você arrancou de mim. Vai dizer que não guardou?
-Foi você que me deu. Você jogou fora, lembra? Disse que não ia mais precisar. Estava querendo algo menos assim.
-Eu fiz isso?
-Fez
-Mas eu perdi tanta coisa com isso.
-É, você perdeu.
-Então, agora o que eu faço?
-Não saber já é um pouco de.
-Entende que cansei das palavras?
-Como assim?
-Tenho a palavra ternura, mas não tenho. Não sei. Pra que serve então?
-Pra falar.
-Não tem outro jeito?