5.10.09

Entrei no ônibus, sentei.
E o menino puxou logo assunto comigo. Tava eu já poentando sozinha "nua desarmada, sem máscara ou maquiagem, sem brilho pré fabricado no olhar, sem risco gratuito na alma, nua desarmada, sem enfeites, sem culpa".
Interrompeu meu poema mental, o menino.
Disse que eu lembrava uma amiga que ele amava, mas que ela tinha casado com um cara mala, tão mala, tão mala, e eu desarmada que tava, me pondo a rir da cara dele.
"Ser grande é reconhecer grandeza no mais rele e vil ato". Pensava eu antes da voz doce do menino me interromper. Abandonou a escola, porque só ia lá pra dormir, porque trabalhava muito e ficava com sono. Chamavam a diretora e olha isso, vê se tem condição, o menino. Largou.
Disse que eu lembrava a tal amiga, impressionante o tanto, de jeito, de simpleza, de humildade assim, sabe? Que eu era assim, impossível não gostar, e eu desarmada, em branco, sem passado e sem idade, ouvindo que é difícil hoje em dia gostar de alguém, e que no fundo ele odeia aquele mala que casou com ela, como pode, e que eu fazia ele lembrar o ódio que ele sentia, mas que tudo bem, eu era leve e calma, como podia tanto? - mal sabe, ele - eu besta, desarmada, enxergando ouro, tão desarmada, enxergando doce, tão desarmada vendo menino doce dentro do menino, tão doce sentindo o doce da boca do menino doce.

12.9.09

Sem nenhuma dignidade mágica eu peço:

Me deixa esconder embaixo das tuas asinhas?

Me deixa ficar aqui quieta até passar a tempestade do tempo confuso.

Sem nenhum brilho grande, sem grandeza grande eu peço.

E por menor que seja meu movimento de esconder embaixo das tuas asas, tem ele a grandeza do medo, a grandeza do coberto na chuva.
A grandeza do tempo presente, de tão grande que é, tão grande que é, acaba assim ó.

A grandeza do amor imperfeito.
Perfeito que é.

4.9.09

O amor mata.
Traz junto consigo a semente de seu próprio fim.
Carinho demais, atenção demais, verdade demais, presença demais, doação demais, sorriso demais, alegria demais, afinidade demais.
Mata.
Vai corroendo por dentro e quando se vê, só sobraram as beiradas.
Mata, mata, mata.
O amor.
E quando se vê não sobrou quase nada.
A não ser a sensação, quase de sonho, de que antes havia alguma coisa ali.

31.8.09

agosto foi
a contra-gosto.
bruxas e bruxinhos caminham por aí. com a força do vento, do fogo, do cheiro da água na terra e com a força da chuva e da locomotiva, caminham por aí. com seus olhares perfumados, fortes e brilhantes, seus pequeninos movimentos. sábios. como se movimentam as copas nos ventos, as cordas na música...