Lembrete:
Ana.
Quando eu tiver uma.
Filha ou personagem. O nome dela deve ser Ana. Como minha bisavó pernambucana que eu conheci hoje por fotografia.
Linda. Forte. Ana.
Pra próxima personagem forte que vier.
Ana. E nada mais.
O extremo. Momento extremo em que o corpo arrepia e pede um pouco mais de vida. Situação limite. Loucura? Fluxo desgovernado do pensamento, sem pretensões estéticas de primeiro plano.
26.12.07
3.12.07
Ele- Não te irrita e assusta?
Ela -O que?
Ele -Pessoas. O tempo todo, em todos os lugares.
Ela -Não
Ele -E ficar só? Aquele silêncio...
Ela -Um pouco.
Ele -Os dois me assustam profundamente. Quando estou só, quero pessoas. Na multidão, tudo que quero é o silêncio. Desculpa, se quiser eu paro de falar...
(silêncio)
Ele - Não fica calada, tem me doído um pouco não saber exatamente o que o outro pensa e me dói ainda mais saber que nunca vou ser o outro, serei sempre eu mesmo a medida pras outras coisas. Essa falta de lucidez me mata...
(silêncio)
Ele -Fala qualquer coisa.
Ela -Calma, to pensando.
(tempo)
...
Ela -O que foi que aconteceu?
Ele -É o que venho tentando descobrir.
Ela -Mesmo?
Ele -Na verdade às vezes, porque quase nunca fico só e quando fico tenho medo de pensar.
Ela -Até de pensar?
Ele -É. Porque parece que toda vez que parei pra pensar antes só piorou tudo.
Ela -Sei...
Ele –Na verdade... faz tempo que quero te pedir uma coisa.
Ela -Pede.
Ele -Devolve minha ternura? Aquela que eu sei que tinha, você escondeu!Eu quase te liguei num dia desses, tinha me dado assim uma grande vontade de te dizer qualquer coisa, deve ser coisa de sábado à noite, eu ia te contar uma coisa que descobri sobre você, e tenho certeza que você não sabe. Sabe... Qualquer coisa...
Ela -Não posso devolver.
Ele -Devolve sim! Devolve e eu te conto o que ia te contar se tivesse te ligado, se eu não (interrompe) De novo....
Ela -Não posso te devolver isso.
Ele -Por que?
Ela -Porque eu não guardei. Como você deve ter percebido, não tenho carregado comigo
Ele -Mas você arrancou de mim. Vai dizer que não guardou?
Ela -Não arranquei não. Foi você que me deu. Você jogou fora. Disse que não ia mais precisar. Disse que estava querendo algo menos assim.
Ele -Eu fiz isso?
Ela -Fez
Ele -Mas eu perdi tanta coisa com isso.
Ela –Perdeu.
Ele -Então, agora o que eu faço?
Ela -Não saber já é um pouco de.
Ele -Entende que cansei das palavras?
Ela -Como assim?
Ele -Tenho a palavra ternura, mas não tenho. Não sei. Pra que serve então?
Ela -Pra falar.
Ele -Não tem outro jeito?
....
Ele –Olha... O corpo sabe, a cabeça não sabe.
Ela -O que?
Ele -Quando você passava dizendo, dizendo coisas que eu não entendia... Eu dizia coisas também.
Ela –É?
Ele -Eu dizia.
Ela -Eu nunca ouvi.
Ele -Eu teria me salvado se você tivesse ouvido.
Ela –Eu nunca vou saber se teria sido minha salvação.
Ele -Digo, porque só eu sei o que eu diria.
Ela -Pode ser.
Ele –É.
.
.
.
.
Ele -A cabeça não sabe, é o corpo que sabe. Ta, era isso o que eu ia te dizer naquele sábado à noite que eu não liguei: Eu ia dizer que quando você passava dançando em frente aquela farmácia, todo dia às 7h43 da manhã você falava uma série de coisas bonitas. Eu também dizia um monte de coisa, mas do meu jeito. E a gente conversava, todo dia, um minuto, porque você chegava, esperava um minuto e o ônibus vinha, a gente tinha uma vida junto naquela época. Eu coçava a cabeça e te olhava, você virava pro outro lado, ou pro meu lado, quando a conversa estava mais interessante.
Ela- O que você ta falando? Eu nem te conhecia.
Ele -Mas eu te conhecia tão bem quanto agora.
...
...
...
Ele- Minha ternura tava naquela sua saia azul da terça-feira. Aquela de nunca mais. Nunca mais. Nunca mais manhãs de terça-feira, nem passar a segunda à noite ansioso pela manhã de terça. Isso que eu perdi pode ter qualquer nome... o que importa é que não tenho mais.
Ela -O que?
Ele -Pessoas. O tempo todo, em todos os lugares.
Ela -Não
Ele -E ficar só? Aquele silêncio...
Ela -Um pouco.
Ele -Os dois me assustam profundamente. Quando estou só, quero pessoas. Na multidão, tudo que quero é o silêncio. Desculpa, se quiser eu paro de falar...
(silêncio)
Ele - Não fica calada, tem me doído um pouco não saber exatamente o que o outro pensa e me dói ainda mais saber que nunca vou ser o outro, serei sempre eu mesmo a medida pras outras coisas. Essa falta de lucidez me mata...
(silêncio)
Ele -Fala qualquer coisa.
Ela -Calma, to pensando.
(tempo)
...
Ela -O que foi que aconteceu?
Ele -É o que venho tentando descobrir.
Ela -Mesmo?
Ele -Na verdade às vezes, porque quase nunca fico só e quando fico tenho medo de pensar.
Ela -Até de pensar?
Ele -É. Porque parece que toda vez que parei pra pensar antes só piorou tudo.
Ela -Sei...
Ele –Na verdade... faz tempo que quero te pedir uma coisa.
Ela -Pede.
Ele -Devolve minha ternura? Aquela que eu sei que tinha, você escondeu!Eu quase te liguei num dia desses, tinha me dado assim uma grande vontade de te dizer qualquer coisa, deve ser coisa de sábado à noite, eu ia te contar uma coisa que descobri sobre você, e tenho certeza que você não sabe. Sabe... Qualquer coisa...
Ela -Não posso devolver.
Ele -Devolve sim! Devolve e eu te conto o que ia te contar se tivesse te ligado, se eu não (interrompe) De novo....
Ela -Não posso te devolver isso.
Ele -Por que?
Ela -Porque eu não guardei. Como você deve ter percebido, não tenho carregado comigo
Ele -Mas você arrancou de mim. Vai dizer que não guardou?
Ela -Não arranquei não. Foi você que me deu. Você jogou fora. Disse que não ia mais precisar. Disse que estava querendo algo menos assim.
Ele -Eu fiz isso?
Ela -Fez
Ele -Mas eu perdi tanta coisa com isso.
Ela –Perdeu.
Ele -Então, agora o que eu faço?
Ela -Não saber já é um pouco de.
Ele -Entende que cansei das palavras?
Ela -Como assim?
Ele -Tenho a palavra ternura, mas não tenho. Não sei. Pra que serve então?
Ela -Pra falar.
Ele -Não tem outro jeito?
....
Ele –Olha... O corpo sabe, a cabeça não sabe.
Ela -O que?
Ele -Quando você passava dizendo, dizendo coisas que eu não entendia... Eu dizia coisas também.
Ela –É?
Ele -Eu dizia.
Ela -Eu nunca ouvi.
Ele -Eu teria me salvado se você tivesse ouvido.
Ela –Eu nunca vou saber se teria sido minha salvação.
Ele -Digo, porque só eu sei o que eu diria.
Ela -Pode ser.
Ele –É.
.
.
.
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Ele -A cabeça não sabe, é o corpo que sabe. Ta, era isso o que eu ia te dizer naquele sábado à noite que eu não liguei: Eu ia dizer que quando você passava dançando em frente aquela farmácia, todo dia às 7h43 da manhã você falava uma série de coisas bonitas. Eu também dizia um monte de coisa, mas do meu jeito. E a gente conversava, todo dia, um minuto, porque você chegava, esperava um minuto e o ônibus vinha, a gente tinha uma vida junto naquela época. Eu coçava a cabeça e te olhava, você virava pro outro lado, ou pro meu lado, quando a conversa estava mais interessante.
Ela- O que você ta falando? Eu nem te conhecia.
Ele -Mas eu te conhecia tão bem quanto agora.
...
...
...
Ele- Minha ternura tava naquela sua saia azul da terça-feira. Aquela de nunca mais. Nunca mais. Nunca mais manhãs de terça-feira, nem passar a segunda à noite ansioso pela manhã de terça. Isso que eu perdi pode ter qualquer nome... o que importa é que não tenho mais.
17.9.07
Da percepção
O momento decisivo foi perceber o tempo. Não abstrato como antes, tempo de papel, mas o tempo tal qual existia. Existia? Sim, decidiu que sim. Existia e passava nem depressa nem devagar, mas na própria cadência. Tinha um pouco de árvore na percepção. Uma certa manhã acordou e sentiu falta de uma árvore. Como não tinha árvore por perto, e não era algo fácil de se comprar na grande magazine da esquina, veio em seguida uma pequena tristeza. E ciente de que o mundo inteiro estava triste de alguma forma, pensou que talvez algo tivesse ficado pra trás, já que agora, nesse momento, desse domingo bem cedo, integrava-se definitivamente à tristeza do mundo inteiro. O tempo era formado de vida e morte, seguida uma da outra. A resistência vinha da impossibilidade, da não-escolha.
E tinha um silêncio que andava na sua própria cadência por baixo da terra, dos pés, das rodas e das ruas. Esse silêncio é que não tinha nome. Esse silêncio é um que às vezes pulava no peito das pessoas soltas, cravando uma coisa que também não tinha nome, e que costumava fazer baixar os olhos e tomava conta das coisas começando por dentro, como bolhas de tinta que vão se unindo aos poucos, num domingo de manhã, o silêncio vem da sala, um pouco da cozinha, um pouco da rua, um pouco de dentro, a tristeza na memória, no azulejo, um pouco de fora, um pouco de dentro.
O momento decisivo foi perceber o tempo. Não abstrato como antes, tempo de papel, mas o tempo tal qual existia. Existia? Sim, decidiu que sim. Existia e passava nem depressa nem devagar, mas na própria cadência. Tinha um pouco de árvore na percepção. Uma certa manhã acordou e sentiu falta de uma árvore. Como não tinha árvore por perto, e não era algo fácil de se comprar na grande magazine da esquina, veio em seguida uma pequena tristeza. E ciente de que o mundo inteiro estava triste de alguma forma, pensou que talvez algo tivesse ficado pra trás, já que agora, nesse momento, desse domingo bem cedo, integrava-se definitivamente à tristeza do mundo inteiro. O tempo era formado de vida e morte, seguida uma da outra. A resistência vinha da impossibilidade, da não-escolha.
E tinha um silêncio que andava na sua própria cadência por baixo da terra, dos pés, das rodas e das ruas. Esse silêncio é que não tinha nome. Esse silêncio é um que às vezes pulava no peito das pessoas soltas, cravando uma coisa que também não tinha nome, e que costumava fazer baixar os olhos e tomava conta das coisas começando por dentro, como bolhas de tinta que vão se unindo aos poucos, num domingo de manhã, o silêncio vem da sala, um pouco da cozinha, um pouco da rua, um pouco de dentro, a tristeza na memória, no azulejo, um pouco de fora, um pouco de dentro.
2.9.07
-Olha vou te perguntar uma coisa que pode parecer, e vai, repetitiva, pobre, besta. Mas é que quando te pergunto coisas é como se desfolhasse a mim também.
-Pergunta - Disse ela com a mesma calma desesperada de sempre.
-Assim... (pausa)
Parou pra coçar a cabeça como quem não sabe bem se quer, deve dizer qualquer coisa.
-... Se você soubesse, tivese uma certeza muito clara de que um dia desses seria o último, seu último dia
Ela parou fixos os olhos castanhos escuros, porque esse tipo de pergunta besta, clichê e sem cabimento sempre acabavam com ela, mexiam o estômago pra lá e pra cá.
-Não sei.
-Não quer pensar
-Não é isso
-Não?
-Não sei. Eu não quero um último dia assim, chamado "último dia".
-Mas e se.
-Tá, não sei. Eu ia querer conhecer sua casa. Ia resolver minhas três paixões mal curadas, remexer nelas também, pegar o telefone e dizer coisas de "eu te amo" a "eu te odeio" a "sabe aquele beijo? Vem correndo, hoje não vou arrotar coca-cola na hora h". Ia fazer chover dentro do meu apartamento, venho pensando nisso faz tempo, só pra ver a TV molhada. Ia pendurar plantas no cano do chuveiro, depois sair por aí e quando desse a cara com a porta da sua casa, amarela, ia bater pedindo pra ver suas coisas, investigar suas portas e garagens, seus tapetes, suas xícaras e restos, até achar num canto essa sua máscara de carnaval que você não tira!
Olharam-se tristes e coloridos, ventando aquele vento quente dessas noites que às vezes acontecem. Ela ameaçou tirar a máscara, mas ele impediu. Então estendeu a mão sobre a máscara dele, mas ele olhava um não sóbrio.
Ele levantou-se, segurou sua mão e levou-a pra ver o sol nascer um outro dia, logo ali, bem perto.
-Pergunta - Disse ela com a mesma calma desesperada de sempre.
-Assim... (pausa)
Parou pra coçar a cabeça como quem não sabe bem se quer, deve dizer qualquer coisa.
-... Se você soubesse, tivese uma certeza muito clara de que um dia desses seria o último, seu último dia
Ela parou fixos os olhos castanhos escuros, porque esse tipo de pergunta besta, clichê e sem cabimento sempre acabavam com ela, mexiam o estômago pra lá e pra cá.
-Não sei.
-Não quer pensar
-Não é isso
-Não?
-Não sei. Eu não quero um último dia assim, chamado "último dia".
-Mas e se.
-Tá, não sei. Eu ia querer conhecer sua casa. Ia resolver minhas três paixões mal curadas, remexer nelas também, pegar o telefone e dizer coisas de "eu te amo" a "eu te odeio" a "sabe aquele beijo? Vem correndo, hoje não vou arrotar coca-cola na hora h". Ia fazer chover dentro do meu apartamento, venho pensando nisso faz tempo, só pra ver a TV molhada. Ia pendurar plantas no cano do chuveiro, depois sair por aí e quando desse a cara com a porta da sua casa, amarela, ia bater pedindo pra ver suas coisas, investigar suas portas e garagens, seus tapetes, suas xícaras e restos, até achar num canto essa sua máscara de carnaval que você não tira!
Olharam-se tristes e coloridos, ventando aquele vento quente dessas noites que às vezes acontecem. Ela ameaçou tirar a máscara, mas ele impediu. Então estendeu a mão sobre a máscara dele, mas ele olhava um não sóbrio.
Ele levantou-se, segurou sua mão e levou-a pra ver o sol nascer um outro dia, logo ali, bem perto.
31.8.07
22/08/2007. Quase primavera.
Então permitiu-se pensar.
Imaginar sem medo a vida.
Caso opta-se pela vida...
Quase.
Quase era quase sempre a principal questão.
Descobriu que imaginar talvez desvendasse, desfolhasse, desmentisse.
Por trás da verdade inventada, uma possível.
Melhor imaginar que engolir minuto a.
Cigarro a´pós cigarro os pensamentos ácidos, diluídos em copos e corpos.
Ácidos sobre os tais desvios de olhar e pensamento e rota diária, desviando-se do caminho apontado pelas mãos e seguindo uma direção inventada por olhos cegos...
Então permitiu-se pensar.
Imaginar sem medo a vida.
Caso opta-se pela vida...
Quase.
Quase era quase sempre a principal questão.
Descobriu que imaginar talvez desvendasse, desfolhasse, desmentisse.
Por trás da verdade inventada, uma possível.
Melhor imaginar que engolir minuto a.
Cigarro a´pós cigarro os pensamentos ácidos, diluídos em copos e corpos.
Ácidos sobre os tais desvios de olhar e pensamento e rota diária, desviando-se do caminho apontado pelas mãos e seguindo uma direção inventada por olhos cegos...
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