28.7.12

de mês em mês ela tossia, tossia e tossia. garganta seca, uma bola de pêlos. não era gato, não entendia. tossia. doía. doía dentro. dentro dela algo doía, pedia, tossia, escarrava uma bola de pêlos. sofria. sozinha escondida na sua caverna, e o sol, outras vezes tão aceso na peito, apagado, noturno, nublado. chovia. tossia. todo dia, uma bola de pêlo. não era gato, não entendia. seguia, em círculo talvez, sorria, sem saber se queria. sonhou, um dia, um grito inflamado, no meio da sala, engasgos e pratos caídos no chão, estalos abafados, uma multidão. acordou tossindo. dentro da noite, sentiu. arranhando a garganta, unhas. dentes de dentro, uma parição, meu deus, uma nascença, uma parto, uma vida nova sem pedir licença abrindo, saindo. um leão. não era mais menina, não. não era mais menina de vidro, era uma parição de vida, era agora a coragem, era agora um leão.

21.1.12

mostra uma tatuagem que te faço uma música.

isso vai acabar mal.

mostra uma cicatriz que te faço uma poesia.

Façamos assim: Eu corto sua carne, eu tatuo meu nome.

Tá feita a poesia.
teve o tempo da palavra poesia som
teve o tempo da palavra poesia precipício
teve o tempo da palavra poesia carne

tem o tempo da palavra sem poesia, sem carne, sem palavra.

ela pré-precipício principia uma canção do acaso:

se pular, lhe segura a mão uma palavra ilusão.

e assim vai voando a menina, que pula do acaso pro chão e nunca cai.

-Eu vou embora, me dá um abraço.
-Tchau
- Só vou embora se você me der um abraço.
-Então você não vai embora.

4.12.10

o meu amor não é um coração.


é um borrão.
minha alma é mais como uma janela aberta
como mais uma janela aberta onde o vento tremula a cortina
Não fecha!

...que enquanto estiver aberta, minha solidão fica toda estrelada.